terça-feira, 17 de março de 2015

terça-feira, 5 de outubro de 2010


Minha História


Nasci com Mielomeningocele (Spina Bífida) e Hidrocefalia. O que são:

Mielomeningocele_ Lesão medular congênita, que a depender da extensão da lesão pode ocasionar sequelas diversas.

Hidrocefalia_ Aumento do líquido intra-craniano. Se não controlada a tempo, leva a óbito.

No meu caso, a mielo atingiu meu equilíbrio para andar solta, me fez ter incontinência urinária (controlada com idas ao sanitário de tempo em tempo). Com 15 horas de nascida, fiz minha primeira cirurgia para fechamento da mielo. Depois com 3 meses fiz outra para controle da hidrocefalia, colocando válvula no alto da cabeça(hoje já não tem mais função), depois de um tempo fiz mais uma para soltar os pés que nasceram presos para dentro, mais um tempo e coloquei válvulas nos ureteres para controlar o refluxo da urina, com 7 anos fiz mais uma cirurgia, dessa vez para corrigir a luxação do quadril pois nasci com os fêmures deslocados, não sendo bem feita essa cirurgia, fiz outra com 9 anos para correção da primeira, no RJ.
Durante esse período da infância, fiz fisioterapia no IBR (Instituto da Bahia de Reabilitação).
Só depois da segunda cirurgia para a correção da luxação no quadril que pude finalmente andar apoiada no andador. Mas mesmo tendo passado por tudo isso no início da infância, tive e tenho vida normal. Fui uma criança como outra qualquer, estudei, fui a todos os lugares que uma criança vai: praia, cinema, teatro, parque, acampamento. Sempre rodeada da família e amigos. O amor e o apoio da minha família nunca me faltou.
Apesar dos meus pais se separarem quando eu era criança ainda, nunca me senti desamparada, pois tinha minha mãe sempre ao meu lado e a falta de meu pai era muitas vezes superada por tios.
E, dois anos após a separação, Deus colocou aquele que seria meu segundo pai, para falar a verdade, meu verdadeiro pai, que foi meu padrasto, não podia ter tido mais sorte, pois ele estava comigo para todos os momentos. Com minha mãe, que é uma verdadeira leoa para defender os filhos e meu padrasto ao meu lado não tinha como me sentir desprotegida. Nem mesmo quando sentia o preconceito de algumas pessoas, sim, passei por situações de preconceito na escola, com colegas dizendo que não gostavam de mim por eu não andar, por eu ser doente, por eu ser diferente, com professores que cobravam de mim mais do que podia fazer.
Enfrentei olhares, piadinhas, risinhos, comentários maldosos...
como se eu não tivesse o direito de estar ali naquele lugar. Mas como venho de uma família " que não leva desaforo para casa " aprendi a superar e a transformar o sofrimento em respostas desaforadas ou em lições de moral, a depender da situação, e assim, fui aprendendo a lidar com todo tipo de gente. Desde os maldosos que me machucavam com palavras até os desinformados do que seria uma pessoa com deficiência. Na adolescência isso ficou mais doloroso, pois já tinha total consciência das minhas limitações e da maldade alheia. E para quem já passou por essa fase, sabe como é complicado não sermos aceitos no grupo. Era dolorido perceber que as meninas me olhavam com ar de superioridade pois se achavam melhores, mais interessantes do que eu por não precisarem usar um andador para andar, e que os rapazes não conseguiam enxergar que atrás daquele andador existia uma adolescente como todas as outras, com sonhos, desejos e capacidade de se apaixonar como qualquer outra, sendo assim elas me olhavam como se eu fosse inferior e eles como aquela que só podia ser "amiga", ou pior, "melhor amiga".
O que ninguém sabia ou não queria saber é que eu fingia não perceber nada disso para tentar ser feliz. Não foi fácil admitir para mim mesma que todos estavam errados pois sem perceber eu vesti o personagem que eles me deram da " melhor amiga " , da " menina feliz ", até o ponto que não aguentava mais e precisei de ajuda para encontrar a verdadeira Marisa, tive que procurar um psicólogo/psiquiátra.
Foi a melhor coisa que fiz, com ele consegui me conhecer, colocar certas coisas no seu devido lugar e daí consegui ser feliz. Passei a me dar mais valor, a me ver não só como deficiente físico mas sim como pessoa e principalmente como mulher.
Quando me reconheci como mulher, passei a me ver como um todo e não só da cintura para baixo. Sempre fui vaidosa, mas escondia o que eu tenho de " perfeito" e fazia questão de mostrar o que eu tenho de " imperfeito ", ou seja, deixei de usar blusas fechadas com shorts e minissaias e passei a usar blusas decotadas, de alcinha com shorts e minissaias. Entenderam a diferença?
Hoje, eu não sou apenas uma deficiente físico e, sim, uma mulher que tem uma deficiência física. Mas mesmo tomando essa consciência não pensem que foi ou que é fácil lidar com meus medos, inseguranças, pois não é. Até eu conseguir realmente me sentir mais segura em relação a mim " penei " um bocado. Senti muita solidão, tinha uma carência monstra. Até que um dia conheci aquele que seria meu primeiro namorado, isso eu já tinha 30 anos, isso para muitos é tarde demais, mas para nós deficientes não é tão raro acontecer, principalmente para aqueles que não tem uma auto-estima lá essas coisas como eu ....rsrsrs.
Ficamos 1 ano juntos oficialmente e 4 anos tentando se encaixar de novo. Durante o primeiro ano, fui feliz em muitos momentos com ele, aprendi muito sobre o que é ser mulher num relacionamento, aprendi a ver o que eu aceito ou não, o que engulo ou não de sapos. E olha, que engoli vários. Terminamos, ficamos alguns meses afastados, até que nos reencontramos, conversamos e resolvemos voltar, mas não foi mais a mesma coisa, eu estava passando por uma fase difícil familiar, e além disso, não conseguia mais confiar e acreditar nele, fui segurando o namoro na verdade para não me sentir mais sozinha e perdida do que já estava, até o dia em que ele disse que queria terminar. Terminamos em definitivo.
Fiquei 6 anos sozinha tendo meus altos e baixos até que conheci um homem através de um site de deficientes, ficamos 6 meses juntos entre idas e vindas, voltei a acreditar que poderia ser feliz mais não deu. Mas, como a vida continua e a esperança é a última que morre, continuo em busca da minha felicidade.



Autoria : Isaleão.

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